Arábia, dirigido por Affonso Uchoa e João Dumans.
Nota: 4/5

Quando o filme se inicia, você pode pensar que Arábia é uma história relacionada a um jovem chamado André, que precisa cuidar de seu irmão mais novo que tem alguma doença, e convivem um com o outro longe da presença de seus pais, ausentes na história. Outra personagem que logo aparece na história é a tia do até então protagonista, que auxilia o mesmo com seu irmão e é uma enfermeira que cuida de diversas pessoas na cidade. Em um dia comum, um operário da fábrica da cidade sofre um acidente e sua tia pede que André vá a casa dele buscar roupas para levar ao hospital. Dentro da casa, encontra um caderno de memórias da vida da pessoa que lá morava. E é exatamente nesse momento que a história sofre uma transformação brusca.

Até o presente momento, o trabalho da direção colocava em André todas as expectativas da carga dramática, mostrando um plano sequência de belas montanhas de Minas Gerais enquanto o jovem anda de bicicleta, contrastando logo em seguida com o cenário melancólico de quando se chega na cidade e a fábrica de alumínio aparece, mostrava conversas dele com seu irmão e sua rotina de cuidar do mesmo. Porém, o filme se inicia no momento que André começa a ler o caderno de memórias de Cristiano, nosso verdadeiro protagonista. A história de Cristiano é contada por meio de narrações em off do próprio personagem, como uma leitura de tudo que foi escrito no em seu caderno.

Preso ainda jovem, Cristiano decide sair de sua cidade natal, Contagem, buscando fugir das coisas que o levaram ao cárcere. Viajando de caronas por diversos lugares, trabalhando em diversos empregos que surgem, como o trabalho na lavoura, na construção e logo em sequência a pesada rotina de fábricas, o filme aqui já demonstra uma simpatia ao trabalhador brasileiro que assim como Cristiano não tem uma formação escolar, não tem muita esperança de alcançar algo “grande” no futuro.

A trilha sonora é usada de maneira espetacular para complementar os sentimentos dos personagens, com canções como “Três Apitos”, interpretada por Maria Bethânia, sobre o trabalho nas fábricas e a busca pelo amor, ou no momento em que os operários estão cantando “Cowboy Fora da Lei” de Raul Seixas em seu tempo livre, a naturalidade e humanidade que se dá nesse momento causa uma empatia quase que instantânea a toda a situação que se encontram.

A história de Cristiano é contada de maneira sutil e simples, seus relacionamentos e tudo que ele absorveu de cada um deles, seus traumas que carrega dentro de si e a dificuldade do homem tratar sobre eles são abordados na trama. Para Cristiano, ficar parado é perda de tempo, e apesar de viver mudando de empregos, cidades, pessoas que se relaciona, somente em seu fim ele encontra uma resposta para sua aflição, e realmente entende o que ele sente de verdade sobre a própria vida, não só a dele, mas de todos aqueles que assim como ele sentem que não pertenciam a lugar nenhum.