Após meses e meses sem nenhum post, por que não falar do filme que escolhi a cena que compõe a capa desse site? Burning, de Chang-dong Lee, é talvez a obra que mais me surpreendeu e me agradou entre todos os filmes que assisti até o momento nesse ano.

Ah-in Yoo, Jong-seo Jun e Steven Yeun, da esquerda para direita, protagonizam o longa

Com um ritmo lento no início, pode ser difícil se apegar aos personagens ou até mesmo entender quais são as pretenções e a verdadeira história que será abordada. Jong-soo vive de bicos e é um personagem solitário, sendo que o único traço de sua vida abordado com maior profundidade é o fato de seu pai estar sendo preso por agressão a um político local. Hae-mi, sua vizinha de infância, e Ben, que virou amigo de Hae-mi em uma viagem a África são os outros personagens apresentados na trama. O trio é basicamente construido como um triangulo amoroso, onde Jong-soo não consegue a atenção de Hae-mi, que se fascina com Ben o tempo todo, que não parece se importar muito com isso, mostrando sempre uma faceta misteriosa.

Em certo momento, uma cena marcante toma o filme e muda totalmente seus rumos (cena que considero pessoalmente uma das melhores de qualquer filme do ano). Os três conversam na varanda de uma casa afastada da cidade, que pertence ao pai de Jong-soo e onde o mesmo passou sua infância. Após fumar um baseado, proposto com Ben, Hae-mi se despe e começa a dançar sob a luz do crepúsculo enquanto um lento jazz toca. Os dois homens tem suas reações diferentes, enquanto Ben se mantém misterioso, Jong-soo se mostra com ciúmes de Hae-mi ter ficado sem blusa, causando um conflito não habitual na trama, que mostra as relações de maneiras tranquilas, já que não se envolviam profundamente com o outro. Nesse momento, a trama sutilmente muda de direção, quando Ben revela um hábito estranho para Jong-soo: ele gosta de queimar estufas, com uma certa frequência. A revelação desse hábito e o conflito entre o casal de amigos da infância faz com que o comportamento do nosso protagonista mude totalmente, atormentando sua cabeça com o segredo revelado e se perguntando o por quê de Ben ter essa mania.

Seguindo a linha da grande escola de suspenses no país, o longa sul coreano traz a partir desse momento um clima investigativo. Hae-mi desaparece, e Jong-soo se desespera querendo saber seu paradeiro, enquanto ao mesmo tempo segue Ben, tentando descobrir onde será a próxima estufa queimada, enquanto anda por várias estufas na Coréia do Sul buscando a próxima que Ben esteve. Essa sequência de Jong-soo a busca da estufa que seria ou já foi queimada, é mostrada com longos planos sequências e uma utilização de luz natural que causa certa aflição no espectador, que busca entender também qual o motivo desse hábito e porque Jong-soo está tão obcecado em Ben.

O final do filme traz um plot-twist que, apesar de ser esperado, traz uma sensação de aflição por toda a sua sequência, até o momento que o filme realmente acaba. A empatia com o protagonista em seus momentos de vulnerabilidade, os mistérios em relação a Ben e impulsividade de Hae-mi dizem muito sobre o filme, casando muito bem com a ótima interpretação dos 3 atores presentes. Todas as metáforas trazidas, um uso inteligente da teoria do gato de Schrödinger para o gato de Hae-mi, que se conecta diretamente com as explicações finais do filme, colocam o longa como um dos suspenses mais angustiantes e que despertam a curiosidade do espectador, apesar do seu ritmo. O fogo, ponto essencial do filme pode dizer muito sobre cada personagem e seus sentimentos sobre o outro.

Vencedor no prêmio do Juri no festival de Cannes em 2018 e esnobado no Oscar de 2019, Burning é talvez o suspense mais bem construído no ano, que apesar de ter um ritmo lento, asfixia com seu mistério sobre o amor, a solidão, a inveja, o tesão, e sobre como tudo pode te levar ao mesmo lugar. O fogo.