Três amigas apostam corrida num carro, que após bater na murada de uma ponte submerge na água turbulenta e lamacenta do rio. Mary Henry (Candace Hilligoss) sai da água e não consegue explicar nada do que aconteceu, nem como conseguiu escapar do carro submerso. Após os eventos consegue emprego como organista em uma igreja de outra cidade. Durante o caminho e em sua estadia, Henry parece cada vez mais se desconectar da realidade enquanto é atormentada pelas visões macabras de um homem que não sabe quem é e por que ele a persegue, porém, nota que ele pode estar ligado a um parque abandonado no qual se sente constantemente atraída a entrar.

Sua narrativa intercala o real e o irreal de maneira que sempre ficamos em dúvida sobre o que se passa na tela. A cidade e sua população são um lugar confiável ou perigoso? Tudo não passa de um trauma de Mary em relação ao acidente? Tudo isso está ligado ao acidente? Não são tratadas questões de filmes de terror como a sobrevivência ou o medo de algo, e sim explora o estado psicológico da protagonista enquanto faz um questionamento sobre sua existência. Atormentada e se sentindo isolada na nova cidade, Mary começa a presenciar momentos estranhos onde parece não estar conectada com nosso mundo, ficando invisível aos outros, incapaz de ser ouvida e vista, seu próprio reflexo é distorcido e apagado, a incapacidade de se relacionar com os outros, como se realmente estivesse deixando de existir.

Após sequências onde é desacreditada por todos sobre suas visões, a demissão da igreja pela sua maneira de tocar o órgão ser considerada um sacrilégio pelo padre, a má relação com os moradores da pensão, consultas médicas que não trazem nenhuma luz, Mary decide fugir da cidade. Seu carro tem problemas para partir e decide parar em uma oficina antes de sair da lá. Porém, o homem misterioso que a segue aparece na oficina e abaixa a rampa onde o carro estava, fazendo com que Mary fuja correndo. O medo faz com que ela decida ir de ônibus para outro lugar, porém, ao entrar no veículo, vê uma legião de pessoas idênticas ao homem que a percebe, com rostos mortos e uma sede pela sua vida. Toda a sequência, assim como boa parte do filme, é acompanhada por uma trilha sonora tocada em órgão, dando um tom mais macabro e sombrio para os momentos sobrenaturais. Após mais um encontro com o homem que a assombra, acorda dentro de seu carro na oficina. Esses sonhos parecem ser uma experiência onde a protagonista se vê de encontro ao mundo dos mortos, deixando sua existência para trás, já que de novo ela se encontra na situação de se tornar invisível a todos. Em um último momento, volta ao parque abandonado, e encontra vários desses fantasmas, que após uma cena onde todos dançam juntos, em um verdadeiro baile da morte, Mary começa a ser perseguida por todos ali.

O ato final do filme confirma a maioria das suspeitas, ao voltar para a cidade onde Mary sofreu o acidente, quando já encontraram o carro que afundou, e todas as jovens presentes no acidente ainda estão lá, mortas pelo afogamento. Sua manifestação física segue uma condição aceita entre aqueles que pesquisam e dedicam suas vidas a entender o sobrenatural: mortes em acidentes podem fazer com que uma alma perdida continue vagando pela terra até entender que seu lugar não é mais lá. Sua manifestação física, apesar de ser mais real do que as exemplificadas nessa situação, nada mais era que uma alma presa em um limbo entre a vida e a morte. O homem que a perseguia, assim como as outras almas, a levam dessa existência.

Com uma equipe de apenas 7 pessoas, contando com o diretor, e o baixo orçamento para o filme (30 mil dólares), é possível detectar vários erros comuns em produções amadoras (erros de continuidade, erros de sincronia na voz e uma edição preguiçosa), porém, Harvey entrega uma obra que marcou o gênero do terror, apesar de todo o atraso para se tornar esse clássico, influenciando clássicos como O Sexto Sentido e A Noite dos Mortos-vivos. Único longa do diretor, apesar de ter passado quase despercebido na época de seu lançamento, alcançou um status de cult após exibições na televisão, com seu relançamento nos anos 80. A maquiagem dos fantasmas, que consistia em rostos todos brancos, olheiras pretas em volta dos olhos e cabelos bagunçados, viria a se tornar a maior inspiração para George A. Romero na concepção de seus zumbis, em A Noite dos Mortos-vivos, enquanto sua narrativa irreal e confusa, além da atmosfera sombria e cheia de mistérios, se mostra uma grande influência para David Lynch, em filmes como Eraserhead, em uma questão também estética, já que os dois mostram grande influência do Expressionismo Alemão da década de 20 em suas montagens, tanto quanto narrativamente na carreira que se seguiria do diretor surreal. Além desses, O Sexto Sentido também aparece como uma obra influenciada pela história, onde se segue a mesma premissa de que uma alma que não entendeu a sua morte vaga pelo mundo humano, mas com a diferença que na obra de Shyamalan somente a criança consegue perceber essas presenças, enquanto aqui todos que viram Mary realmente interagiram e tiveram momentos diretos com ela, evidenciando que sua existência era realmente real, pelo menos naqueles momentos.

Apesar de poder ser categorizado como um filme B, sua estética e sua narrativa superam os vários problemas enfrentados por essa categoria, se tornando um cult e um clássico do gênero obrigatório para fãs de terror de qualquer época, bem como fãs do movimento expressionista, base da construção da história. Candace Hilligoss, que era a única atriz profissional no elenco, entrega ótimos momentos e uma performance memorável.